Indígena baleado em conflito no Sul da Bahia revela a violência do latifúndio.

23 de abril de 2012

Por Graciliano Rocha

Da Folha de São Paulo

O conflito entre fazendeiros e índios no sul da Bahia teve uma escalada de violência ontem com um índio pataxó baleado próximo ao rio Pardo, em Pau Brasil (550 km de Itabuna). Segundo a Polícia Federal, Ivanildo dos Santos, 29, levou um tiro na coxa por volta das 13h de ontem e foi levado para um hospital em Itabuna. Ele não corre risco de morrer.

A PF não informou as circunstâncias do disparo nem havia identificado o autor até a conclusão desta edição. Há suspeita de que ele tenha sido baleado por seguranças dos fazendeiros que tentam impedir invasões de terra.

A área onde Santos foi baleado é a mesma onde a Folha constatou a existência de homens armados em uma espécie de bunker para proteger a fazenda Santa Rita -do ex-prefeito de Pau Brasil Durval Santana (DEM).

A PF não especificou se o disparo ocorreu dentro da fazenda ou se houve troca de tiros. Wilson de Souza, dirigente da Funai (Fundação Nacional do Índio) na região, disse que o índio não estava armado e foi atacado quando estava na fazenda -o que a polícia não confirma.

A existência dos homens armados foi negada por Santana. Ontem, a filha do ex-prefeito, Sonyr Santana, voltou a negar que haja seguranças armados na Santa Rita e disse que não teve conhecimento do caso do índio.

ZONA DE GUERRA

A região de Pau Brasil virou uma zona de disputa conflagrada entre índios e fazendeiros por um território de 54 mil hectares – o equivalente a um terço da área da cidade de São Paulo.

Os índios pataxó hã hã hãe iniciaram em fevereiro uma série de invasões de terra para pressionar o Supremo Tribunal Federal a julgar a ação de 1982 que pede a nulidade dos títulos de propriedade de 396 fazendeiros para a criação de uma reserva indígena.

Apesar do clima de tensão, há pequena presença policial na área. A PF mantém seis homens em duas caminhonetes que percorrem as estradas da região. Nos últimos dias ninguém foi preso e nenhuma arma foi apreendida.

Há cinco guarnições da Polícia Militar dando apoio à PF, mas os PMs reforçam as entradas da cidade e uma rodovia que liga Pau Brasil a Itaju do Colônia e não entram na estrada vicinal onde há mais risco de enfrentamento.

Questionado, o governador Jaques Wagner (PT) informou que pediu ao Ministério da Justiça o reforço do efetivo da PF na área porque se trata de conflito com índios.

A Equipe da Folha de São Paulo também foi ameaçada por pistoleiros. Abaixo, o relato dos repórteres:

Jagunços pararam nosso carro e nos ameaçaram

Por Joel Silva

Nós estávamos seguindo por uma estrada em Pau Brasil. Ela não parecia perigosa, já tínhamos passado por ali antes, embora já tivéssemos avistado seguranças perto da propriedade do ex-prefeito Durval Santana (DEM).

Por volta das 8h, quando estávamos subindo uma colina, fomos surpreendidos no ponto alto da estrada por um grupo de jagunços armados de escopetas e revólveres na cintura. Doze ao todo.

Os que estavam encapuzados se postaram diante do carro e gritaram para pararmos. Eu e o motorista procuramos sair calmamente do veículo e, para mostrar que não estávamos armados, colocamos as mãos no capô.

Os homens encapuzados nos mandaram deitar no chão. Fomos então revistados e interrogados. Explicamos que éramos de São Paulo e trabalhávamos como jornalistas da Folha. “Cadê a carteirinha?”, perguntaram. Pedimos que olhassem dentro do veículo.

Inspecionaram nossos equipamentos e documentos e depois botaram tudo de volta. Mandaram então que nós entrássemos no carro e fôssemos embora dali sem olhar para nenhum deles -alguns não estavam encapuzados -, se não iriam atirar.

Partimos devagar.

Alguns quilômetros à frente fomos parados por outro grupo de jagunços – sete deles, mas só um com escopeta. Não estavam de capuz. Questionaram o que fazíamos na região. Explicamos e nos identificamos novamente. “Sai daqui! Sai daqui!”, gritaram.

Rodamos até encontrar um grupo de agentes da Polícia Federal. Contamos então o que nos sucedeu. Até agora a PF diz não ter achado armas com índios e fazendeiros.

Fonte: mst.org.br

Justiça rejeita recurso e manda prender fazendeiro condenado pelo assassinato da missionária Dorothy Stang.

A 1ª Câmara Criminal Isolada do Tribunal de Justiça do Pará negou nesta terça-feira (6) o recurso apresentado pelo fazendeiro Regivaldo Pereira Galvão, o Taradão, condenado a 30 anos de prisão pelo assassinato da missionária norte-americana Dorothy Stang, em 2005, com seis tiros.Considerado mandante do crime, Galvão tentava anular a sentença proferida pela 2ª Vara do Tribunal do Júri de Belém (PA), em abril de 2010. Além de rejeitar o apelo do fazendeiro e manter a condenação, os juízes aprovaram, por unanimidade, o pedido da relatora da apelação, a juíza convocada Nadja Nara Cobra, para a prisão preventiva de Galvão.

Condenado a cumprir a pena inicialmente em regime fechado, Galvão obteve um habeas corpus que lhe permitiu recorrer da sentença em liberdade provisória, sendo o único dos cinco acusados pelo assassinato da missionária a continuar solto. O fazendeiro sempre negou qualquer participação no crime.

Galvão ainda pode recorrer da decisão no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Porém, com o pedido de prisão cautelar aprovado nesta terça-feira, se o fizer, deverá aguardar o julgamento na prisão, a menos que consiga outro habeas corpus. Segundo a assessoria do Tribunal de Justiça estadual, o mandado é emitido instantaneamente, pela internet, à Polícia Civil, encarregada de localizar e prender o fazendeiro.

Defensora dos direitos de pequenos produtores rurais da região de Altamira (PA), área de intenso conflito fundiário, Dorothy Stang foi morta com seis tiros em fevereiro de 2005, na cidade de Anapu (PA).

Os outros condenados por participação no assassinato da missionária são Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, condenado a 30 anos de prisão; Rayfran das Neves, o Fogoió, condenado a 27 anos; Clodoaldo Batista, o Eduardo, condenado a 17 anos; e Amair Feijoli, o Tato, sentenciado a 27 anos.